Aqui estarão os artigos publicados no Jornal Bom Dia, além de reflexões entre umas e outras. Pensamentos baratos de uma vida rica.
10.4.06
carta de um amigo que foi ver Cuba lançar...
Cuba fica aqui do lado e, lendo Pedro Juan Gutierrez, achei que fosse mais barata do que o nordeste. Convenci a mulher e um casal de amigos a irmos para a passagem de ano. O pacote (parte aérea + hotel = cerca de US$ 1.200 por cabeça, ficando num hotel de boa qualidade, 15 minutos distante de Habana Vieja) não chegou a pesar, até porque estava no orçamento. Mas descobri que a vida lá não é tão barata assim. Embora o dólar valha 20 pesos cubanos, nós, os turistas, usamos pesos convertibles, cada um a US$ 1,25.
Saímos de Guarulhos, paramos no Panamá e cerca de 12 horas depois pousávamos no Jose Martí em Havana. Como estávamos com uma fome ancestral, fomos levados pelo taxista a um “paladar”. Paladares são restaurantes, agora legalizados pelo Governo, na casa das pessoas. Têm esse nome em homenagem à rede de restaurantes de Regina Duarte em Rainha da Sucata. Aliás, frase curiosa ouvida de um cubano: “pode-nos faltar comida, mas novela brasileira jamais!” Cardápio: saladinha de repolho cru, cortado fininho, tomates, pepinos; arroz misturado com feijão preto sem caroço (com gosto diferente do nosso), camarões e lagosta na chapa. Prato que meio típico da cozinha crioula, foi o que mais se repetiu por lá. Bom o sabor, principalmente dos frutos do mar. Preço básico: 15 pesos, prato individual.
Nosotros fomos a Havana para conhecer mesmo as pessoas. Ver como vivem debaixo de um regime diferente, na última década sem o auxílio de Moscou, e com o vergonhoso bloqueio econômico imposto pelos estodosunidenses.
Andamos pra caramba na cidade, na parte histórica, nos bairros, até em casa de mãe de santo estivemos – e, creia, o nome dos orishas é o mesmo. À praia fomos apenas a Santa Maria, ao leste de Havana, 20 minutos de carro e a Varadero, o mais barato passeio da viagem. O ônibus (da brasileira Marcopolo) de transfer nos pegou no hotel às sete e meia, viajamos quase duas horas, passamos o dia inteiro em um hotel de luxo tipo Club Med com comida e bebida liberada, esportes náuticos e o escambau. Sendo devolvidos no hotel por volta das oito da noite. Preço: 50 CUCs (pesos convertibles) por cabeça. No Brasil não se faz isso, com esse dinheiro.
Recomendo, aos beduínos, a rota de Hemingway: La Bodeguita del Medio para um “mojito” ”– rum branco, suco de limão, hierba buena (hortelã), gaseosa e açúcar – e El Floridita para o um daiquiri ao lado de sua estátua. Almoçar no hotel da cobertura do Hotel Ambos Mundos, onde o escritor se hospedava também é uma boa.
Charutos te oferecem na rua de montes. Até achei estranho, quase assustador, a primeira vez: um negão, desses de 2 x 2, com as duas palmas da mão abertas, uma virada para a outra, olhando para mim e me oferecendo um negócio de mais ou menos 20cm. Passado o susto descobri que seriam “puros habanos”. Aliás, desenvolvi uma teoria sobre esse mercado paralelo. Claro que te vendem charutos falsos nas ruas, mas te vendem charutos bons também. Alguns que não passaram na criteriosa seleção de qualidade das fábricas, alguns que devem ter sido roubados... Mas acredito, de verdade, que muitos deles são os tomados pela alfândega e devolvidos ao mercado.
Explico. O turista tem direito de sair de Cuba com 23 habanos. O 24º precisa ter nota carimbada pelo governo. Como li isso na chegada, dei preferência a comprar todos meus charutos na Casa del Habano. Paguei mais caro. Mas veja só: quando entrávamos atrasadíssimos no avião, o alto-falante nos chama à aduana. Lá nos esperavam para abrir nossas malas. Abertas, tudo com nota, carimbado, devidamente protocolado et cetera e tal. Viajamos sem perder nada, além de tempo. Mas na mesma sala, vi no mínimo uns 5 gringos perdendo caixas e caixas de charutos comprados no “paralelo”. Es la Ley, diziam os guardas.
Achei a famosa Tropicana um saco. Um show do Sargentelli muuuuuuuuuuuuito piorado. Dizem que a maioria dos dançarinos e cantores quedou-se no exterior durantes as turnês. Talvez seja essa a causa.
Agora a música, mesmo das ruas, é tudo de bom. Ouvi dizer, que muitos dos navios negreiros vindos da África separavam os casais, deixando a mulher lá e trazendo o marido, ou vice-versa. Está explicado porque achei os cubanos tão semelhantes aos cariocas. Só que melhor preparados, musicalmente falando. Imagina você na praia e um grupo tocando com dois violões (um de 6 cordas e 3 afinações), maracás, bongôs e até baixo acústico. Aqui no Rio, o mais que se vê é tamborim, atabaque, cavaquinho e, no máximo, um banjo – que, aliás, não gosto no samba.
Um abraço do
Vespa
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