5.4.06

Passarinho não acompanha urubu

Essa é uma daquelas história que não esqueceremos jamais. Adoro aventuras gastronômicas, e essa é uma das boas. Não pela dúvida da qualidade, mas sim pelo medo da conta.

Em algumas vezes eu já relatei essa aventura, mas acredito que ela vale a pena ser registrada, também aqui no Bom Dia.
A primeira parte traz as minhas observações e a segunda traz o relato de um amigo que caiu desavisado na brincadeira.

FASANO, para poucos.
Tudo começou com a idéia de uma noite especial, para marcar um momento de nossas vidas. Escolhemos, então, o Fasano.Para se dar uma idéia do que isso representou, nada melhor do que um exemplo prático: noite de sábado, fila de espera. E enquanto esperávamos no bar, desocupar a mesa onde estava Olavo Setúbal, tínhamos a companhia de Michel Temer.Acho que assim dá para situar um pouco o ambiente! Claro que não dá para negar a imponência das instalações; do acabamento em mármore carrara; do teto que se abre, automaticamente, bem no centro do restaurante; da decoração impecável; dos tapetes que nos revertem ao ³mágico.O ambiente, cosmopolita e elegante do Fasano é um lugar fantástico para conversar e degustar a cozinha primorosa de Salvatore Loi. Além de um atendimento impecável. Os melhores vinhos internacionais e algumas opções nacionais fazem parte da carta da casa. O bar é completo e confortabilíssimo. FASANORua Vittorio Fasano, 88, JardinsTel.: (11) 3896-4000

Passarinho não acompanha urubu
A proposta era a seguinte: ³vamos ao novo Fasano, eu compro uma garrafa de uísque e a gente come uns beliscos e aproveita a noite em grande estilo². A frase era de um amigo chegado: nem pensei recusar! Primeiro porque sou bebedor de uísque, segundo porque teria uma garrafa inteira, sem custo, no lugar mais badalado desses últimos tempos. Três casais no total, contando comigo e namorada.Todos viajados, com passagem pelos lugares badalados em Paris, Nova York, Madrid, Buenos Aires, Barcelona e Londres. Devo lembrar que no Lê Procope, fundado em 1685, em Paris, paguei 50 euros (quase 200 reais) por um jantar comme il faut: entrada, prato principal, vinho, licor e sobremesa, tudo farto. Significa que o presumido alto custo do Fasano não seria novidade. A idéia era conviver bons momentos no meio da fama e celebridades, embora ninguém do grupo fosse milionário, muito menos eu,cujo caixa estava num nível de alarme calamitoso. Mas, não custa investir duzentão numa noite inesquecível, num lugar considerado top line, foi o que imaginei. Bom, vamos em frente. Como tinha uísque na parada, pensei que o nosso encontro seria no Baretto, piano-bar do Fasano. Explico: você entra no saguão do hotel, do lado direito está o restaurante e no esquerdo o Baretto. Fui com minha namorada para o bar - essa é a minha tendência. Fomos recebidos pelo Maitre Comandante, pela Hotess Assistente, que nos passou para o Maitre Interior o qual delegou-nos para um Garçon Executivo que tinha sob suas ordens um Cumim Expert. Todos sorridentes. Olhei de longe para o bar, o Barman sorriu para nós. O pianista, os demais músicos também sorriram. Como meus amigos não tinham chegado e, diante de tanto sorriso, achei de bom tom pedir uma cerveja pequena e para minha namorada uma caipirinha de vodka nacional. Só para ³fazer hora² enquanto minha turma não chegava. Poderia ter pedido um vinho branco, mais chique, mas resolvi ser prudente e aguardar o uísque sob patrocínio do meu amigo. Para adiantar perguntei se vendiam garrafa, já estava de olho no Red Label ou mesmo num Black White, linha pop, porém, respeitadas. Sempre sorridente o Maitre Interior esclareceu que ali não vendiam garrafas de uísque, mas se chegássemos a consumir uma inteira teríamos um desconto final, na garrafa, de dez por cento. A dose do uísque era 45 reais. Preço da linha pop. ³Puxa vida², pensei, ³meu amigo não sabia dessa². Liguei o alarme e comecei a beber a cerveja em goles menores: precisava ganhar tempo.O ambiente maravilhoso, Dave Gordon, amigo de outros tempos e outros piano-bares, era um luxo. Pelo celular os amigos me avisaram que estavam já no restaurante, esperando: era lá o encontro. Pedi que transferissem minha conta do bar para lá e eles pediram que assinasse a transferência da caipirinha e a cerveja. Estávamos ali há uns quinze minutos e a conta indicava 80 reais! Uma caipirinha com vodka nacional e uma pequena cerveja. Recomendei sorrindo que chamassem o caminhão da Brinks para fazer a transferência. Eles não entenderam minha graça, mas continuaram sorrindo. Atravessamos o saguão e entramos no restaurante que também tinha o seu mini bar. Meus amigos já estavam se levantando e fomos para uma grande mesa no fundo do restaurante, deixando várias taças de Dry Martini modelo James Bond, tomadas no bar. Ora, se a gente estava indo para a mesa de jantar, minhas chances de beber o prometido uísque por conta do amigo estavam indo pelo ralo. E, pelo tamanho da mesa ³a maior da casa² se correspondesse ao custo do metro quadrado naquela região dos Jardins, a coisa ia ficar preta. Uma área do meu cérebro, não sei qual, ficou calculando que os duzentões previsto para despesas tinham que ser revistos. Meu amigo é especialista em vinho e escolheu um chileno, teoricamente mais barato, pensei, ou melhor, torci. Percebi que uísque não ia rolar ³nesse nível não é chique bebê-lo em mesa de jantar² - e me entreguei ao destino. Melhor seria relaxar e curtir a noite. E vem a fila, o Maitre Superior, o Maitre Comideiro, o Somelier, o Garçon de Toda Hora e o Cumim. Vinho acompanha água, e vice versa. A água era São Pellegrino, que no mercado custa 11 reais. Pela experiência de multiplicação no bar presumi - apenas presumi, o preço que cobrariam ali. Afinal de contas tinham que pagar o salário daquela gente sorridente. E sorriso não tem salário que chegue. O problema era que naquele ambiente os nervos afloram e a boca seca. Haja São Pellegrino! Bom, vamos em frente. O menu oferecia duas alternativas de jantar, todas acima de 180 reais. Ou você escolhia um prato muito bem descrito pelo Maitre Comideiro ou escolhia um menu degustação com cinco diferentes pratos, incluída a sobremesa. É evidente que os babacas raciocinaram que cinco é muito mais que um e ³vamos nessa². Menu degustação, cinco pratos. Babette ficaria orgulhosa e o duzentão inicial estava ficando pra trás. Uma garrafa vinho chileno dividida em seis taças mal dava para o deguste. E tome São Pellegrino. Mais uma garrafa de vinho, dessa vez, italiano. Chega o primeiro prato dos meus cinco previstos. Imagine uma tirinha de anúncio classificado, uma coluna por um centímetro. Era o tamanho da torrada com leve camada de patê em cima. Num prato enorme e maravilhoso. A gente se entreolhou, cada um tinha pedido um tipo de degustação. Mas o que é que eu queria num restaurante daquele? Uma travessa de sanduíche de pernil? Os pratos dos meus companheiros de mesa não diferiam muito. ³Vou me vingar no segundo prato², esperei. Veio outro enorme prato com um tomate pequeno descascado no vapor e duas tirinhas ³dois milímetros² de camarão. Tão finas que eram transparentes, delicadamente colocados no meio daquele imenso pratão. Que é que eu posso falar: ruim não estava, tinha gosto de tomate refogado e tirinha de camarão. O segundo prato do meu amigo ao lado mostrava uma camadinha de feijão no fundo, só. Nem pensar em cobrir aquele feijãozinho com uma merecida porção de arroz, num restaurante daquele! Feijão chique. Minha fome continuava inteira e botei esperança no terceiro prato. Veio. Quatro minúsculos cappelettis cercados por um caldinho não identificável. Demorei exatos 15 segundos para comê-los, porque quis ser fino e não mostrar fome exagerada. Como o quarto prato era risoto, minha esperança recaiu na imagem da comida italiana, tradicionalmente farta. O montículo de risoto, reunindo arroz arbório dentro de um dosador pequeno de uísque e, cuidadosamente depositado bem no centro do enorme prato. Qualquer SPA faria inveja àquela porção ridícula. Sem alternativa e com muita fome, sob os olhares perplexos de todos na mesa, decidi investir toda esperança na sobremesa. E quando ela chegou eu desabei. Tecnicamente era um micro pudim de pão com o nome pomposo e, minúsculo. Liga para o Fome Zero! No corredor do banheiro tem um botão que, acionado, descortina a cozinha inteira. Imediatamente todos na cozinha olham para você e sorriem. Devem pensar: olhem todos para os babacas. Bom, para resumir: já que a coisa veio longe, nos meus cálculos de pobre, o custo industrial do que comi não supera 16 reais, sem incluir, é claro, taças, talheres, toalhas de mesa, teto basculante, móveis, folha, instalações, decoradores, IPTU e abundância de sorrisos. A conta de R$ 2.544,00 para seis pessoas, não incluiu um champagne que o meu amigo pagou a parte. Ficou a lição: passarinho não acompanha urubu. Ficou também uma lição que muitos não aprendem: os restaurantes de Sorocaba ainda são muito baratos. Alguns não têm a fama e o aparato do Fasano, podem não ter o mesmo refinamento, mas são honestos e não merecem as tantas críticas que a gente faz.

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